domingo, 1 de novembro de 2009

Redenção dos boleiros



Domingo, fim de tarde, 30 e poucos graus em Porto Alegre. Depois de correr quenemumadoida pela Redenção, parei pra descansar e observar cinco meninos que jogavam uma pelada sob o nascer da lua cheia. Até então, nunca havia me dado conta de que, assim como o sol, a lua também nasce! Para mim, ela apenas surgia e, quando a gente menos esperava, lá estava rodeada de estrelas, toda exibida no céu. Engano meu. A lua nasce grandiosa, magnífica, imponente e iluminada. Mas os ponteiros do relógio vão correndo e, tímida, ela vai diminuindo de tamanho...

Se você não costuma olhar para o alto, perde o espetáculo. Se você não costuma olhar a sua volta, também.

Os pequenos boleiros da Redenção provavelmente não perceberam que, enquanto a bola corria, a lua nascia magistral. O palco deles não possuía marcações ou grande e pequena área... À espreita, não tinha certeza de que a partida era protagonizada pelo time dos camisas laranja contra os de branco ou dos calçados com chinelo versus os que usavam tênis. Era um jogo diferente: sem regras, sem linhas, sem juiz e sem comemoração na hora do gol. Goleiro só tinha um, de chinelo. Aliás, nunca tinha visto ninguém jogar de havaianas! Chinelo só atrapalha. Muito melhor, então, jogar descalço.

Fiquei ali sentada, tentando entender. Um senhor também assistia a partida. Me chamava atenção a habilidade do menor do time. O menino devia ter uns sete anos. Era o mais ousado, pedia passe, tinha fome de bola, driblava os grandões, que deviam ter, no mínimo, o dobro de sua idade e tamanho. Não havia confusão naquele jogo. A paixão pelo futebol fazia com que partilhassem em harmonia uma bola e um pedaço de grama. Se tivesse perguntado a eles o que gostariam de ser quando crescessem, com certeza, eles responderiam, sem hesitar: "Jogador de futebol, tia!" - como a maioria dos brasileirinhos.

A noite chegou. Apito final e nada de prorrogação! Foi quando descobri que aquelas crianças não se conheciam. A bola era do pequeno habilidoso, que joga no Colorado de Viamão - contou-me o pai orgulhoso. Despediram-se com um aceno típico de crianças, assim de longe, só com  a mão. Os outros quatro meninos ficaram ali sentados na grama, observando a lua. O lar deles era a Redenção. E o futebol, a libertação.

2 comentários:

Daniel Miranda disse...

Cleidi, meus Parabéns... Esse seu texto pode entrar na minha lista dos melhores textos que eu já li na vida. E, tbm, na sua lista de escritos. Que emoção e com mistura de poesia, que inspiração hein - voltando ao tópico anterior INSPIRATIONE

Você escreve bem, parabéns e que bom que posso lê-la! Ah viva a REDENÇÃO, muito joguei bola lá com a mesma idade desses meninos, como tbm o sonho de jogar bola e ser famoso através dela, a "pelota" hehe... Bjos e Abs!

Quase 30! disse...

Cleide...que texto lindo!!! Excelente narrativa..adorei!